Endometriose:Quando a Dor é Silenciada

A Consciência Vira Ato Político.
Você já sentiu uma dor menstrual tão intensa que te impediu de viver sua rotina?

 Já ouviu que "é normal" sentir dor durante a menstruação, mesmo que ela seja incapacitante?
Infelizmente, essa é a realidade de milhões de mulheres que sofrem de endometriose, uma doença crônica que afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva globalmente.
No Brasil, estima-se que mais de 7 milhões de mulheres convivam com essa condição, muitas delas sem diagnóstico ou com um diagnóstico tardio que leva, em média, de 7 a 10 anos para ser confirmado.
Essa demora não é apenas um problema médico; é um reflexo de um sistema que silencia, desacredita e normaliza a dor feminina.
A endometriose ocorre quando o tecido semelhante ao endométrio (que reveste o útero) cresce fora do útero, podendo atingir ovários, tubas, intestino e até outros órgãos.
Esse tecido reage aos hormônios do ciclo menstrual, sangrando e causando inflamação, aderências e cistos, resultando em dores crônicas, infertilidade e um impacto devastador na qualidade de vida. Como ginecologista especializada em infertilidade e saúde da mulher, vejo diariamente o sofrimento e a frustração de pacientes que peregrinam por consultórios, ouvindo que suas dores são "psicológicas" ou "exageradas". Essa normalização da dor é um dos maiores obstáculos para o diagnóstico e tratamento eficaz.
A boa notícia é que a conscientização está crescendo, impulsionada por iniciativas poderosas. Um exemplo notável é o documentário "This is Endometriosis", vencedor do prestigiado prêmio BAFTA de 2023. Este filme não apenas lança luz sobre a doença, mas também valida as experiências de quem a vive, transformando a dor individual em uma narrativa coletiva e urgente. No Brasil, o projeto "Sob A Pele" segue essa mesma linha, utilizando o cinema como uma ferramenta de cuidado, escuta e reparação, dando voz a quem por muito tempo foi silenciada.A realidade brasileira, no entanto, apresenta desafios adicionais. Além da já mencionada demora no diagnóstico e da minimização da dor, enfrentamos a questão do acesso desigual ao tratamento. Muitas mulheres, especialmente em regiões mais carentes, não têm acesso a especialistas, exames diagnósticos adequados ou terapias que poderiam aliviar seu sofrimento. Isso transforma a endometriose em uma questão de saúde pública, gênero e justiça social. Não se trata apenas de uma doença ginecológica; é um problema que expõe as fragilidades de um sistema de saúde que ainda falha em atender às necessidades específicas das mulheres.Para nós, profissionais de saúde, e para a sociedade como um todo, é crucial entender que a dor crônica não é uma condição a ser ignorada. A infertilidade, uma das consequências mais dolorosas da endometriose, afeta profundamente a vida de casais que sonham em construir uma família. Meu trabalho com casais com dificuldade para engravidar me mostra a cada dia a importância de um diagnóstico precoce e de um tratamento multidisciplinar.
A endometriose não é uma sentença, mas exige atenção, conhecimento e empatia.Transformar a dor individual em consciência coletiva é um gesto político. É um ato de solidariedade e de luta por um futuro onde nenhuma mulher precise sofrer em silêncio. O cinema, como o documentário "This is Endometriosis" e o projeto "Sob A Pele", desempenha um papel fundamental ao educar, emocionar e mobilizar.
Eles nos lembram que a arte pode ser uma poderosa ferramenta de mudança social, capaz de quebrar tabus e exigir ação.Se você se identificou com algum dos sintomas – dor pélvica crônica, dor intensa durante a menstruação ou relações sexuais, dificuldade para engravidar – procure um especialista. Não aceite a normalização da sua dor. Sua saúde e bem-estar são prioridades. Juntas, podemos mudar essa realidade e garantir que a endometriose receba a atenção e o tratamento que merece.