Por Dra. Carolina Andreoli — Ginecologista e especialista em Reprodução Humana
Nas redes sociais, a testosterona virou sinônimo de virilidade: mais músculo, mais energia, mais "potência". A promessa de um "super-homem" seduz milhares de homens todos os dias. Mas o que viraliza quase nunca conta a história completa — e uma parte importante dessa história passa pela fertilidade masculina.
Como médica que acompanha casais que sonham em engravidar, vejo de perto as consequências desse empolgamento com o hormônio. Por isso, este artigo reúne o que a ciência realmente comprova sobre o tema e o que a primeira diretriz brasileira sobre reposição de testosterona estabeleceu.
Reposição hormonal não é suplemento
O primeiro ponto que precisa ficar claro: reposição hormonal não é suplemento. Não é vitamina, não é creatina. A testosterona é um tratamento médico, com indicação específica, efeitos profundos no organismo e necessidade obrigatória de acompanhamento profissional.
O problema surge quando essa fronteira se apaga. O uso por conta própria — ou incentivado por influenciadores — expõe o homem a riscos que vão muito além do "shape" almejado.
O impacto silencioso na reprodução
A testosterona aplicada de fora não é inofensiva para quem tem planos de ser pai. Ela atua diretamente no eixo reprodutivo masculino. Ao receber o hormônio pronto, o organismo interpreta que já tem produção suficiente e "desliga" o estímulo natural às gônadas:
Cai o FSH e o LH, hormônios que comandam a produção de espermatozoides;
Cai a testosterona dentro do testículo, essencial para a espermatogênese;
A produção de espermatozoides despenca, podendo chegar a zero (azoospermia).
E aqui está o ponto que muita gente desconhece: a recuperação não é imediata. Estudos mostram que, após a suspensão do uso, o retorno dos espermatozoides pode levar meses — e quanto maior o tempo de uso e mais avançada a idade, mais demorada e incerta é essa recuperação.
A primeira diretriz brasileira
Diante dessa confusão, o Brasil avançou. Em 2026, foi publicado o primeiro posicionamento conjunto sobre hipogonadismo masculino, assinado pelas principais sociedades médicas do país: a SBEM (Endocrinologia), a SBU (Urologia) e a ABEMSS (Medicina Sexual e Saúde).
O documento trouxe critérios rigorosos e finalmente colocou limites claros entre o que é tratamento e o que é uso indevido.
O que a diretriz estabelece
O diagnóstico de deficiência de testosterona não se baseia em um número isolado. A diretriz exige um processo investigativo:
Presença de sintomas compatíveis (como fadiga, perda de libido e redução de disposição);
Duas dosagens sanguíneas pela manhã, confirmatórias;
Testosterona total abaixo de 264 ng/dL sustentando o diagnóstico;
Valores entre 264 e 350 ng/dL configuram uma zona que exige investigação adicional;
Acima de 350 ng/dL, é improvável haver deficiência real.
Ou seja: exame de sangue é apenas uma parte do quebra-cabeça. O quadro clínico completo é que define a conduta.
Estética não é indicação
E aqui vai o ponto que precisa ecoar cada vez mais alto: usar testosterona apenas para ganho de massa muscular, força ou fins estéticos não é indicação médica.
Quem faz isso está apostando contra a própria saúde — com riscos ao coração, às taxas hormonais, à saúde reprodutiva e, para quem sonha em ser pai, à fertilidade — sem nenhuma necessidade real por trás.
Testosterona pode transformar a vida de quem realmente precisa, com diagnóstico correto e acompanhamento. Mas pode comprometer sonhos de quem a usa por moda.
Se você usa — ou pensa em usar — testosterona e tem planos de ser pai, converse com um especialista antes de começar. Em muitos casos, é possível preservar a fertilidade (como o congelamento de espermatozoides) antes de iniciar o tratamento, garantindo que a escolha de hoje não se torne o arrependimento de amanhã.
Saúde reprodutiva se protege com informação correta, critério médico e acompanhamento de quem entende do assunto. Agende sua consulta e cuide do seu projeto de formar uma família.

